Atire a primeira pedra aquele que não fica em dúvida diante de uma tela/folha que espera um texto. Nas minhas aulas de Redação, o pavor diante da folha em branco é o primeiro inimigo a ser combatido, e isso depende de organização do pensamento, leitura, debates e prática. Eu, por exemplo, estava aqui refletindo sobre tudo que li a respeito das redações do Enem 2014 e tudo que vi/senti durante a prática docente da escrita e, ao mesmo tempo, selecionando mentalmente todas as ideias que trabalharia neste texto (sim, escrever não é apenas inspiração, é trabalho!) para desconstruir o monstro do senso comum que se criou em torno desse assunto.
Pois bem... Em primeiro lugar, é bom recordar que a mídia ADORA criar polêmica (sempre), e o fato de 529 mil candidatos terem zerado a redação do Enem 2014 não passaria despercebido pelo jornalismo brasileiro, nem deveria. Confesso que não esperava análises muito profundas acerca do desempenho desses estudantes, mas o que eu tenho lido ultrapassa todos os níveis da negligência, da mídia e de cidadãos, o que, mais uma vez, no lugar de desencadear reflexões que valorizem a educação pública - afinal mais de 70% dos que fizeram a prova estudaram em escolas estaduais - colocam os estudantes como burros, os professores como incompetentes e o exame como ineficaz. Culpabiliza-se os atores sem se pensar nas causas, desconsiderando-se que a família também tem uma responsabilidade gigantesca nos resultados.
Se para escrever bem, é preciso ler, entre outros fatores, responda rápido: uma criança ou um adolescente que só vê os pais grudados na tela de uma TV ou pipocando sem critérios pelo Facebook vai querer ler? Qual será a noção de aproveitamento do tempo livre para ele? Começa por aí. A escola deve se empenhar pela formação de leitores, mas isso não é suficiente se não houver apoio consciente da família.
Outro ponto importante nesta discussão é o desconhecimento dos procedimentos de elaboração e correção da redação do exame. Pessoas responsáveis buscam o máximo de informação antes de emitir opinião a respeito de um assunto que elas não dominam, logo, a leitura do edital e do manual do corretor do Enem 2014 deveria preceder, obrigatoriamente, a produção de conteúdo, seja ele institucionalizado ou nas redes sociais. Quer saber o que zera a redação? Está lá no site do Inep, tudo bem explicadinho. E posso adiantar: ortografia não zera, ferir os Direitos humanos zera, entre outras coisas que provavelmente você ainda não saiba, mas pode procurar saber.
Em relação à dificuldade que a maioria encontrou para ser autoral e desenvolver bons argumentos, acredito que o grande vilão de 2014 foi o tema. Em anos anteriores, a prova privilegiou temas amplamente debatidos na mídia, como a Lei Seca, em 2013. Não foi o caso do último exame, que exigia reflexões sobre a publicidade infantil, assunto pouco, para não dizer quase nada, abordado pelos meios de comunicação por motivos óbvios: eles vivem de publicidade. E a falta de informação leva a um terreno movediço de incertezas, de argumentações frágeis, fatores que fazem a nota despencar consideravelmente.
Em relação à dificuldade que a maioria encontrou para ser autoral e desenvolver bons argumentos, acredito que o grande vilão de 2014 foi o tema. Em anos anteriores, a prova privilegiou temas amplamente debatidos na mídia, como a Lei Seca, em 2013. Não foi o caso do último exame, que exigia reflexões sobre a publicidade infantil, assunto pouco, para não dizer quase nada, abordado pelos meios de comunicação por motivos óbvios: eles vivem de publicidade. E a falta de informação leva a um terreno movediço de incertezas, de argumentações frágeis, fatores que fazem a nota despencar consideravelmente.
A parte boa dessa história toda é que recebi feedback de vários dos meus alunos de Redação, todos muito acima da média. E o mérito é todo deles, que me permitiram ensinar e aprender em cada encontro, que tiveram autonomia para buscar informação além dos limites da sala de aula, que abriram a mente para analisar as mais variadas formações discursivas, do Sul21 à Veja, que se posicionaram ideologicamente e criticamente segundo suas crenças e realidade, que, por meio de debates e do exercício da escrita, desenvolveram o que todo professor de português/redação sonha alcançar numa sala de aula: produções textuais com posicionamento crítico e consciência do papel do cidadão na sociedade. Algo que vai muito além da excelência ortográfica. Trata-se da palavramundo, termo criado por Paulo Freire, grande mestre da educação, para o qual "a leitura do mundo precede a palavra" (FREIRE, 1988). Trocando em miúdos, é preciso atuar no mundo para atuar nas Letras.
Sendo o Enem uma importante porta de entrada para a educação superior, para a concretização dos sonhos de tanta gente, já que seu desempenho pode ser utilizado no processo de ingresso de diversas universidades públicas e privadas, fica o apelo para que seja tratado com mais seriedade. Não estou dizendo que é perfeito, porque não é. Mas que analisemos seu processo antes de ativar o bombardeio inconsequente. Afinal, como eu sempre digo nas minhas aulas, estudem o assunto, reflitam, exponham argumentos e responsabilizem-se pelo que foi dito/escrito. Serve para quem vai encarar a página em branco da redação, serve para as páginas da vida.
Referência
FREIRE, Paulo. A Importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 22 ed. São Paulo: Cortez, 1988.

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