quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Enem 2014 e o monstro do senso comum



Atire a primeira pedra aquele que não fica em dúvida diante de uma tela/folha que espera um texto. Nas minhas aulas de Redação, o pavor diante da folha em branco é o primeiro inimigo a ser combatido, e isso depende de organização do pensamento, leitura, debates e prática. Eu, por exemplo, estava aqui refletindo sobre tudo que li a respeito das redações do Enem 2014 e tudo que vi/senti durante a prática docente da escrita e, ao mesmo tempo, selecionando mentalmente todas as ideias que trabalharia neste texto (sim, escrever não é apenas inspiração, é trabalho!) para desconstruir o monstro do senso comum que se criou em torno desse assunto.

Pois bem... Em primeiro lugar, é bom recordar que a mídia ADORA criar polêmica (sempre), e o fato de 529 mil candidatos terem zerado a redação do Enem 2014 não passaria despercebido pelo jornalismo brasileiro, nem deveria. Confesso que não esperava análises muito profundas acerca do desempenho desses estudantes, mas o que eu tenho lido ultrapassa todos os níveis da negligência, da mídia e de cidadãos, o que, mais uma vez, no lugar de desencadear reflexões que valorizem a educação pública - afinal mais de 70% dos que fizeram a prova estudaram em escolas estaduais - colocam os estudantes como burros, os professores como incompetentes e o exame como ineficaz. Culpabiliza-se os atores sem se pensar nas causas, desconsiderando-se que a família também tem uma responsabilidade gigantesca nos resultados.

Se para escrever bem, é preciso ler, entre outros fatores, responda rápido: uma criança ou um adolescente que só vê os pais grudados na tela de uma TV ou pipocando sem critérios pelo Facebook vai querer ler? Qual será a noção de aproveitamento do tempo livre para ele? Começa por aí. A escola deve se empenhar pela formação de leitores, mas isso não é suficiente se não houver apoio consciente da família.

Outro ponto importante nesta discussão é o desconhecimento dos procedimentos de elaboração e correção da redação do exame. Pessoas responsáveis buscam o máximo de informação antes de emitir opinião a respeito de um assunto que elas não dominam, logo, a leitura do edital e do manual do corretor do Enem 2014 deveria preceder, obrigatoriamente, a produção de conteúdo, seja ele institucionalizado ou nas redes sociais. Quer saber o que zera a redação? Está lá no site do Inep, tudo bem explicadinho. E posso adiantar: ortografia não zera, ferir os Direitos humanos zera, entre outras coisas que provavelmente você ainda não saiba, mas pode procurar saber.

Em relação à dificuldade que a maioria encontrou para ser autoral e desenvolver bons argumentos, acredito que o grande vilão de 2014 foi o tema. Em anos anteriores, a prova privilegiou temas amplamente debatidos na mídia, como a Lei Seca, em 2013. Não foi o caso do último exame, que exigia reflexões sobre a publicidade infantil, assunto pouco, para não dizer quase nada, abordado pelos meios de comunicação por motivos óbvios: eles vivem de publicidade. E a falta de informação leva a um terreno movediço de incertezas, de argumentações frágeis, fatores que fazem a nota despencar consideravelmente.

A parte boa dessa história toda é que recebi feedback de vários dos meus alunos de Redação, todos muito acima da média. E o mérito é todo deles, que me permitiram ensinar e aprender em cada encontro, que tiveram autonomia para buscar informação além dos limites da sala de aula, que abriram a mente para analisar as mais variadas formações discursivas, do Sul21 à Veja, que se posicionaram ideologicamente e criticamente segundo suas crenças e realidade, que, por meio de debates e do exercício da escrita, desenvolveram o que todo professor de português/redação sonha alcançar numa sala de aula: produções textuais com posicionamento crítico e consciência do papel do cidadão na sociedade. Algo que vai muito além da excelência ortográfica. Trata-se da palavramundo, termo criado por Paulo Freire, grande mestre da educação, para o qual "a leitura do mundo precede a palavra" (FREIRE, 1988). Trocando em miúdos, é preciso atuar no mundo para atuar nas Letras.

Sendo o Enem uma importante porta de entrada para a educação superior, para a concretização dos sonhos de tanta gente, já que seu desempenho pode ser utilizado no processo de ingresso de diversas universidades públicas e privadas, fica o apelo para que seja tratado com mais seriedade. Não estou dizendo que é perfeito, porque não é. Mas que analisemos seu processo antes de ativar o bombardeio inconsequente. Afinal, como eu sempre digo nas minhas aulas, estudem o assunto, reflitam, exponham argumentos e responsabilizem-se pelo que foi dito/escrito. Serve para quem vai encarar a página em branco da redação, serve para as páginas da vida.

Referência
FREIRE, Paulo. A Importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 22 ed. São Paulo: Cortez, 1988.  




sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Sim, você sabe português


Frequentemente escutamos alguém dizer: "Ah, eu não sei nada de português!" Mas é possível algum falante brasileiro não saber nada de português? A resposta é não. Internalizamos a língua portuguesa desde muito pequenos, organizamos frases na ordem correta, dialogamos verbalmente das mais variadas formas, logo, sabemos português.

Essa confusão se dá em razão de algumas pessoas terem dificuldades com a norma culta, a temida gramática. No entanto, o que pode parecer um monstro de sete cabeças, devido ao ensino tradicional, que valorizava excessivamente as regras fora de contexto, com frases soltas e decoreba, pode se revelar algo surpreendente quando passamos a perceber o uso de cada uma dessas regras. Como isso é possível? Lendo e escrevendo. A prática da leitura e da escrita colocam a língua e o conhecimento em movimento, fazem com que identifiquemos o porquê da existência de cada regra, mesmo sem perceber, como ilustra a tirinha do Armandinho.

Bora ler? :)

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Vai crase ou não?


Tem gente que fica arrepiada só de ouvir falar em crase. Como profissional de Letras, digo com propriedade que "Vai crase ou não?" é uma das perguntas que eu mais ouvi na vida. Para exemplificar essa dificuldade da galera e tentar explicar um pouquinho desse misterioso fenômeno (Uh! Até eu fiquei com medo agora!) trago uma frase que volta e meia aparece pelas redes sociais: "Parabéns à todos!" Dá pra entender a mensagem? Sim. A intenção é boa? Claro, é lindo dar parabéns! Mas essa crase não existe, gente. O correto é "Parabéns a todos!", sem crase.

Por ser formada da contração do A preposição com o A artigo (que é feminino), a crase só antecede palavras femininas. Trata-se de uma consequência lógica da língua, pois não usamos artigo feminino antes de palavras masculinas. Viram? Não é uma proibição, é lógica. ;)

No caso de "Dei balas àqueles meninos" (opa! "meninos" é masculino! O que aconteceu aí?), a contração é do A preposição com o pronome demonstrativo AQUELES (o que também vale para AQUELA, AQUELAS, AQUELE, AQUILO), que resulta em ÀQUELES.

Acho que agora a galera vai saber onde pôr a crase. Pelo menos algumas. :)

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Nunca fomos macacos

Não se fala em outra coisa desde a semana passada. Neymar, em parceria com a agência de publicidade Loducca, lançou a hashtag #somostodosmacacos publicando uma foto sua com seu filho, ambos segurando uma banana. Um amor. Depois disso, centenas (ou até milhares) de pessoas, principalmente celebridades globais, dispararam suas fotinhos com a fruta - a la Paloma Oliveira, que pintou uma unha de branco para pedir paz. Se isso é sério? Sim, seríssimo. Parece que é tendência. #vergonhalheia

Foto publicada por Neymar em perfil no Instagram

E mais, teve espertinho ~aka Luciano Huck~ que lançou camiseta com o tema por apenas 69 reais. Praticamente de graça, gente! TU-DO pela causa. Rolou até selfie do apresentador com Angélica, que aparentemente quis sensualizar com a banana (ah, pareceu!). Mas ele disse que reverteria toda a verba arrecadada com a venda do produto para o terceiro setor, depois da chuva de vaias. Por fim, retirou a camiseta do ar e pediu desculpas pela mancada.

Isso tudo mudou o mundo e acabou com o racismo, saiu na Veja. Final feliz. Sigam suas vidas lindas no mundo cor de rosa. Só que não, né.

A ação #somostodosmacacos foi um fiasco, salvo seu grande "impacto social" em mentes rasas que mataram a aula de biologia ou esqueceram que não viemos do macaco, mas de um ancestral comum. Saca a diferença? Além disso, TODO MUNDO SABE que macaco não é elogio para ninguém, pelo contrário, há muito tempo é um adjetivo que deprecia a figura do negro, que fere, e acho que nem precisaria explicar por que, já que todos tiveram aulinhas de história (ou mataram essas também?) que mostraram a forma como os negros foram tratados durante o período da escravidão: como bichos, como coisas. Isso se não veem, ou fingem não ver, o preconceito que nos rodeia todos os dias. E nada ilustra isso tudo de forma mais impactante quanto a história do pigmeu Ota Benga, que ficou em exibição no zoológico do Bronx, em Nova York, junto aos ma-ca-cos, numa jaula.

Ota Benga

Então, parem, por favor. Porque, definitivamente, nunca fomos e não queremos ser todos macacos. Nenhum dos negros com quem eu conversei sobre a campanha curtiu a ideia, pelo contrário. Mas a agência criadora, mesmo abaixo de um milhão de críticas em todas as suas manifestações pelo Facebook, continua dizendo que foi mal compreendida por "alguns", que a ação foi um sucesso, tem-até-gringo-tirando-foto-com-banana, cega em meio a tanta "genialidade". Típico de quem não estuda antes de tocar num assunto tão delicado como o racismo, que merece reflexões consistentes e debates bem mais profundos que um pires.

#SOMOSTODOSHUMANOS



quinta-feira, 1 de maio de 2014

Dia do Trabalhador, dia de luta

O origem do Dia do Trabalhador está em uma manifestação de trabalhadores que ocorreu em 1886, em Chicago, Estados Unidos. O motivo da manifestação? Diminuir a jornada de trabalho para 8 horas diárias. Foram dias de luta e violência, que resultaram em mortes e prisões. Durante muitos anos, o dia 1º de maio foi lembrado com manifestações que seguiam reivindicando a jornada de 8 horas, mas somente em 1919 o governo francês ratificou a exigência da classe trabalhadora, tornando este o Dia do Trabalhador. 33 ANOS DEPOIS DA PRIMEIRA MANIFESTAÇÃO.

O engraçado é que muita gente que hoje é beneficiada com essa conquista (ou pelo menos deveria ser, se todas as empresas respeitassem a lei), que só existe graças a bravos manifestantes que foram às ruas lutar por esse direito, hoje fazem cara feia só de ouvir a palavra MANIFESTAÇÃO. Será que essas pessoas pensam que todos os direitos que hoje nós temos foram concedidos por governantes e empresários bonzinhos que queriam ver o seu povo feliz e com melhores condições para viver suas vidas e manter suas famílias? Porque se for isso, sinto invadir o País das Maravilhas.

É preciso, sim, lutarmos para que nossos direitos sejam preservados, cumpridos, e para que possamos melhorar a nossa sociedade sempre. É assim que o mundo evolui: com luta, coragem, com vontade de fazer a diferença.

Pessoas morreram para que hoje fosse mais que um feriado. Pessoas morreram para que tivéssemos os direitos que temos hoje. Para que eu, sendo uma mulher, pudesse estar aqui questionando a sociedade, a política, trabalhando, votando, exercendo meu direito como cidadã crítica.

E ainda há muito pelo que lutar.

Imagem do livro Trabalhadores, de Sebastião Salgado.

Voltei!

A pedido de amigos, e porque sinto imensa necessidade de expor minhas ideias, promovendo o debate e compartilhando vivências e conhecimentos, passarei a blogar com mais frequência. A ideia é trazer questionamentos sobre diferentes temas do cotidiano, principalmente daqueles que, muitas vezes, passam batido (como minhas experiências no trem de cada dia, que até então iam direto para o Facebook), mas que quase sempre têm algo que me coloca para pensar sujeitos, realidades, vidas.
Sim, também pretendo escrever sobre a língua portuguesa, língua espanhola, literatura, redação e educação, que são o meu chão e minha paixão.
Então, chega aí. Vamos trocar umas ideias. =)